quarta-feira, 27 de maio de 2009

Comportamentos Vestiginais que não podemos esquecer em uma aventura

Comportamentos vestigiais que não podemos esquecer em uma aventura

De todas as grandes descobertas das ciências biológicas, o estudo da genética foi provavelmente o mais importante. Gregor Mendel foi o primeiro a elaborar, ainda no século XIX, a idéia de que certos atributos são passados geneticamente dos pais pros filhos. Um conceito aparentemente tão simples e óbvio mudou completamente a forma como o ser humano vê a própria fisiologia e deu a fundação pra outras idéias revolucionárias, como a teoria da evolução.
Nas primeiras décadas de estudo da genética e da evolução, o objeto da análise era muito específico - estudava-se o resultado isolado da evolução num espécime qualquer de um animal. Ou seja, o importante era entender como este animal desenvolveu seu bico, ou como aquele outro aprendeu a voar. O foco da ciência eram modificações biológicas tangíveis.
Só mais tarde é que ficou claro que a evolução não atuava simplesmente dando aos animais novas funções biológicas ou aprimorando mecanismos de auto-defesa. Os genes também eram capazes de perpetuar certos comportamentos que há milhões de anos agiam de forma beneficial ao grupo. Daí vem o termo “comportamento vestigial”, porque ele é um vestígio de um estágio evolutivo inferior.
Hoje em dia, no entanto, tais comportamentos vestigiais não fazem muito por nós. Alguns deles chegam a ser uma encheção de saco.
Vamos dar uma olhada em alguns desses comportamentos evolucionários vestigiais.

Pareidolia
Que diabo é isso?
Pareidolia é uma conjunção das palavras gregas para, que significa “junto”, ou “ao lado”, e eidolon, que significa “ídolo”, “icone” ou “imagem”. Ou seja, o termo significa “aquilo que está junto à imagem”.
Essencialmente, pareidolia se refere ao fenômeno de ver formas simples sem estrutura bem definida (sombras ou nuvens, por exemplo) e identificar padrões ou imagens específicas. Sacou? Aquilo que está junto à imagem. “Aquilo”, no caso, são as interpretações que fazemos quando vemos imagens sem definição clara.
Isso era útil porque…
O homem é provavelmente o animal mais social de todos neste planeta. Não nos contentamos simplesmente em reconhecer membros da própria espécie e nos organizar em bando. Isso é algo simples demais que todo animal levemente bem desenvolvido faz, através de odores e ferormônios e outros métodos cognitivos menos sofisticados.
Vamos muito além disso. Nossa visão é muito mais especializada do que a da maioria dos animais, e usamos isso pra reconhecer uns aos outros usando certas “âncoras visuais”. O formato do nariz, o tipo de cabelo, a largura da boca, a posição dos olhos e outros pequenos detalhes da nossa fisiologia ajuda membros do grupo a identificar uns aos outros.
Como o homem não é um animal particularmente rápido ou forte, sua existência dependeu desde o princípio da convivência em bandos. E essa habilidade de reconhecer visualmente uns aos outros se tornou algo extremamente útil; indivíduos que apresentavam essa capacidade se mostravam mais aptos a se socializar, e assim sobreviver, e acabaram passando a habilidade aos seus descendentes.
Pareidolia acabou se estendendo além do simples reconhecimento facial. Quando expostos a qualquer forma que se assemelha meramente com um objeto familiar, nosso cérebro automaticamente “conecta os pontos” e vemos naquela sombra ou mancha algo que na verdade não está lá. Novamente, isso se mostrou útil a um animal dotado de uma inteligência primitiva que o permitia usar ferramentas rudimentares. Pareidolia era duplamente importante.
Hoje em dia é uma merda porque…
Em primeiro lugar, hoje em dia nossa sobrevivência não depende mais de reconhecer membros do nosso círculo social. Pareidolia ficou encalhada no nosso cérebro como uma habilidade vestigial semi-inútil. Claro que é importante não confundir sua namorada com o negão de 2 metros que está do lado dela na parada de ônibus, mas num ponto de vista evolutivo, é uma bagagem desnecessária que não contribui diretamente pra sua sobrevivência.
E sabe todas essas histórias de aparições de anjos/demônios/fantasmas e tal?
Tudo isso pode ser explicado por essa Pareidolia,
Numa aventura pode-se usar o contexto certo e fazer maravilhas com isso para a interpretação de personagens e explicar algo para um cético.

Dominância Masculina
Que diabo é isso?
Ora, você já sabe o que é isso. Saca todas aquelas ocasiões em que alguém pisou no seu pé, ou te empurrou numa boate, ou fez um comentário idôneo que você intepretou como uma ofensa? Aquela súbita vontade de tirar satisfação de forma desnecessariamente agressiva nada mais é que o instinto de dominância masculina sussurando no seu ouvido após tantos milênios de evolução que provavaram que tal comportamento garantia sucesso no mundo.
Isso era útil porque…
Nos tempos primórdios, violência era tudo. Ela fazia a diferença entre voltar pra casa com um javali enfeitado com flechas no lombo ou morrer de fome; entre passar as noites fornicando com a fêmea mais atraente do grupo, ou se masturbar solitariamente numa caverna escura, usando as próprias lágrimas como lubrificante.
Naquele mundo ancestral em que imperava a lei do “o mais forte sobrevive”, era importante - a coisa MAIS importante do mundo, aliás - ser um machão briguento com nervos a flor da pele prestes a explodir em cima dos competidores pela comida ou fêmeas. Voar pra cima dos oponentes mostrando os caninos era a única forma de garantir sua sobrevivência, e a perpetuação da espécie.
O macho-alfa do grupo tinha a sua disposição toda a comida e sexo que quisesse, por isso era muito importante se mostrar melhor e mais forte que todos os outros machos do bando.
Nossa amiga Seleção Natural meteu o dedo aqui, novamente, garantindo que apenas os mais violentos e agressivos vivessem pra contar a história e pôr num mundo filhotinhos que invarivalmente herdariam o mesmo tipo de comportamento.
Hoje em dia é uma merda porque…
Como você deve ter notado, o contexto social em que o homem atual vive é consideravelmente diferente daquele que gerou esse tipo de comportamento. Nossa sobrevivência e sucesso com o sexo oposto tem muito menos a ver com agressividade, e sim com a sua posição social e o conteúdo da sua carteira (sua aparência física também é muito importante, e isso também é um comportamento vestigial). Você não poderá pagar as compras do mês espancando o caixa do Bom Preço, e aquela menina do RH provavelmente não dará pra você só porque você espancou o noivo dela com um pedaço de pau que você encontrou no estacionamento.
Aliás, dominância masculina não se manifesta exclusivamente através de atos de violência. Você já viu duas ou mais pessoas discutindo de maneira incrivelmente arrogante e beligerante, nenhuma das duas querendo admitir publicamente estar errado.
Mais um exemplo que se pode usar em interpretação de personagem.

Atração sexual baseada em aparência física
Que diabo é isso?
É o motivo pelo qual você deseja penetrar vaginalmente aquela loirinha do seu grupo de estudos, e não a amiga dela cujo peso necessita de três dígitos pra ser escrito.
Isso era útil porque…
Apesar do que os filmes adolescentes tentam insistentemente nos convencer, o nerd gordo não deveria pegar a cheerleader no final do filme. Isso é especialmente verdadeiro caso o outro pretendente seja o quarterback musculoso do time de futebol da escola (que acabou de marcar o touchdown de vitória na final do campeonato escolar).
Num ponto de vista estritamente biológico, dar pro nerd adiposo seria a pior coisa que a mocinha poderia fazer. No mundo animal, as características mais importantes na escolha do parceiro sexual são força e beleza. O macho-alfa do grupo (ou seja, aquele que já provou seu valor espancando ou matando os outros machos da tribo) tem direito de escolha entre as fêmeas, como já explicamos. E dominância não é o único fator - ser bonito importa muito também. O melhor exemplo disso é o pavão, cuja cauda de penas coloridas
são essencialmente a versão aviana de bíceps esculpidos, cabelo loiro sedoso e olhos azuis.
Um animal visivelmente atraente está passando a seguinte mensagem pra possível parceira: “Tenho ótimos genes. Dê pra mim, e seus filhos também os terão”.
Pavões com caudas vistosas atraiam mais fêmeas que os pavões sem tais apetrechos, e por isso o gene da cauda bonitona acabava sendo mais propagado. A característica acabou se tornando a norma.
Mais uma ferramenta de interpretação poderosa principalmente pro mestre.

Medo do desconhecido
Que diabo é isso?
O motivo pelo qual você muda de canal imediatamente quando percebe que tá passando um filme de terror e você está sozinho em casa.
Isso era útil porque…
A Mãe Natureza é uma professora impaciente, que dá punições cruéis aos animais que cometem vacilos (dica - a punição é a morte violenta, o único tipo de morte que o mundo selvagem conhece). Animais burros dificilmente recebem uma segunda chance, então é garantir que você agiu certo da primeira vez.
Por causa disso, animais não esperam ter certeza de que viram um predador pra sair correndo em disparada, defecando-se a si mesmos de tanto pavor. Aquela sombra movendo-se sorrateiramente atrás de uma árvore pode ser apenas estar sendo projetada pelos galhos acima, ou pode ser um leão que não come a duas semanas. O ruído que você ouviu vindo da moita pode ser apenas o vento, ou um grupo de hienas prestes a disputar uns com os outros pelas suas tripas, enquanto seus últimos suspiros o mantém vivo pra assistir a cena.
Em que possibilidade você colocará suas fichas?
Exatamente. No mundo animal, supor automaticamente que qualquer fenômeno desconhecido é a personificação da morte (e agir de acordo, ou seja, correr na direção oposta) é a melhor maneira de manter-se vivo. Como qualquer outro comportamento que mantém o indivíduo vivo por mais tempo, o medo do desconhecido foi recompensado através da perpetuação genética.
O resultado disso é que nossa fisiologia é sofisticadamente especializada pra lidar com essa situação - quando exposto ao desconhecido, seus batimentos cardíacos se aceleram (pra oxigenar os seus membros e possibilitar uma corrida), suas pupilas se dilatam (pra permitir maior passagem de luz, melhorando sua percepção do ambiente), seus pelos se eriçam (numa tentativa pífia de te fazer aparentar maior e mais intimidante) e seus sentidos se aguçam, deixando o animal em estado de tensão, aguardando o menor sinal de perigo como um disparo de largada de uma corrida de cem metros rasos. Isso se chama “fight or flight instinct”, ou seja, instinto de fuga ou luta. Como em qualquer sistema ecológico há muito mais presas que predadores, o instinto de FUGA foi o que ganhou prioridade.
Hoje em dia é uma merda porque…
Sabe o texto sobre mistérios inexplicados? Então. Minha namorada tem dois empregos e meu irmão passa todo o tempo livre na casa da namorada. Isso significa que durante toda a pesquisa dos mistérios debatidos naquele texto (e vários outros que acabaram não entrando no corte final do post) eu estava sozinho em casa.
Com todas as luzes da casa acesas.
Olhando pra trás a cada cinco minutos.
E seriamente pensando em mijar no aquecedor pra não ter que ir até o banheiro.
Esse princípio pode ser usado pra quando em situações desse tipo o mestre criar algumas penalidades pra fazer determinadas coisas em condições assustadoras

Promiscuidade
Que diabo é isso?
De maneira simples, promiscuidade é simplesmente aquele desejo incontrolável de comer o maior número de mulheres possível, de preferência simultaneamente.
Isso era útil porque…
Só existem duas prioridades no mundo animal - sobreviver e foder. Comportamentos vestigiais são essencialmente aquilo que nos ajudava a sobreviver, perpetuado geneticamente através da fodelança.
Isso é a base da teoria de seleção natural. Animais mais aptos a sobreviver no ambiente tendem a viver por mais tempo, o que significa que eles treparão com mais frequência, tornando os genes dele mais propagados. E esses genes carregarão justamente aquilo que os ajudou a viver por mais tempo e trepar mais. A prole sortuda do animal neste exemplo nasceria com um Manual do Escoteiro Mirim embutido no seu DNA, garantindo que ele também sobrevivesse por bastante tempo e trepasse incessantemente.
Outra coisa digna de nota é a clara diferença nos comportamentos sexuais masculinos e femininos. Homens, como sabemos bem, sentem uma vontade irresistível de enfiar seus membros reprodutores em qualquer mulher que se mostre solícita o bastante. Já mulheres são (geralmente) mais criteriosas na escolha dos parceiros, e liberam apenas sob condições específicas.
Isso é, como você deve ter imaginado, mais um comportamento evolutivo vestigial. Biologicamente falando, esperma é barato; óvulos são caros. Homens produzem milhões de espermatozóides por dia, enquanto toda mulher nasce com um número fixo de óvulos.
Além disso, some o fato de que o ato da procriação é bastante fácil pro macho, e muito complicado pra fêmea. A fecundação exigirá da fêmea um investimento energético alto, já que ela precisará alimentar a si mesmo e o bebê.
Já o homem pode sair dando sêmen a torto e a direito, e cinco minutos e um cochilinho depois, já estar pronto pra outra. Nós machos temos tantos gametas que podemos nos dar ao luxo de desperdiçar alguns milhões deles na frente do RedTube quando não há ninguém em casa.
Por causa dessa diferença, é importante à fêmea ter certeza de que escolheu o parceiro certo, com os genes certos, com quem copular. Afinal, ela só poderá repetir o feito nove meses depois.
Hoje em dia é uma merda porque…
Infelizmente, tentar fecundar o número máximo de fêmeas possível não é mais socialmente aceito. Nem adianta tentar explicar pra namorada que é um comportamento evolutivo que você não consegue controlar - eu já tentei.
Muito interessante pra tentar melhorar a interpretação em um secção de jogo.


Retirado de Hoje é um Bom Dia

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