quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Os bancos e a arte de fabricar dinheiro

Quase todo mundo tem contas correntes e de poupança e quase todo mundo paga juros, deposita, faz transferências... Mas praticamente ninguém, nem mesmo a maior parte dos empregados e diretores dos bancos, está a par dos mecanismos que movem as engrenagens do sistema bancário. O natural seria que, ao abrir uma conta, cada um fosse devidamente informado a respeito do assunto. É claro que isso não acontece, mas, em todo caso, nada nos impede de imaginar como seria...

Diálogo entre Banqueiro e Cliente:

Cliente: Para que existem os bancos?

Banqueiro: Bem... para ganhar dinheiro, naturalmente.

C: Para que os clientes ganhem, claro.

B: Não, para que os bancos ganhem.

C: E por que a publicidade bancária não menciona esse fato?

B: Não seria de bom gosto, mas isso está subentendido quando se faz referência a reservas e coisas do tipo. Esse é o dinheiro que se ganha.

C: Evidentemente, ganha-se esse dinheiro dos clientes...

B: Presumo que sim.

C: Bom, e quando se fala em ativos, alude-se também a dinheiro que o banco ganhou?

B: Não exatamente. Esse é o dinheiro que se usa para ganhar dinheiro.

C: Ah, tá! Suponho então que o guardem numa caixa-forte...

B: De modo nenhum. Nós o emprestamos a nossos clientes.

C: Então os senhores não o têm?

B: Não.

C: Então, como podem chamá-lo ativo?

B: Porque ele realmente seria assim se pudéssemos recuperá-lo.

C: Mas... certamente têm algum dinheiro guardado em algum lugar!

B: Claro que sim. Normalmente temos uma quantidade igual ao ativo, a que chamamos de passivo.

C: Mas, se o têm... como podem chamá-lo de passivo?

B: Porque não é nosso.

C: Então, por que o têm?

B: Porque os clientes nos emprestaram.

C: Mas, como? Quer dizer que são os clientes que emprestam dinheiro aos bancos?

B: Exato. Depositam dinheiro em nossas contas... e realmente o emprestam ao banco.

C: E que fazem os bancos com o dinheiro?

B: Emprestam-no de novo aos clientes.

C: Não disse o senhor que o dinheiro que vocês emprestam corresponde aos seus ativos?

B: Sim.

C: Mas então quer dizer que o passivo que vocês recebem dos clientes e o ativo que vocês emprestam... são a mesma coisa!

B: Nossa! Eu não seria tão categórico!

C: Eu deposito R$1.000 em minha conta e o banco me deve esse dinheiro (que é o passivo), mas eis que o emprestam a outra pessoa (o ativo) e ele... tem que devolvê-lo. Mas... não são os mesmos R$1.000?

B: Com certeza!

C: Então, se ambas as operações se anulam... os bancos NÃO TÊM NENHUM DINHEIRO!

B: Isso é só em teoria...

C: Esqueça a teoria. Se não têm dinheiro... de onde tiram suas reservas?

B: Já lhe disse... é simplesmente dinheiro que ganhamos...

C: Como?

B: Se o senhor nos traz R$1.000, só utilizará, em princípio, dez por cento dessa quantia. Os pagamentos grandes são feitos com talão. Nós guardamos R$100 para quando o senhor precisar de dinheiro propriamente dito.

C: E o resto?

B: Bem, a partir de cada um daqueles R$100 restantes lucramos R$1.000.

C: Vocês lucram R$9.000 com base nos meus R$1.000 iniciais?

B: Claro, pois da mesma forma que o senhor só utiliza R$100 dos R$1.000, com os outros acontece o mesmo.

C: E cobram juros?

B: Claro, ao redor de 19% a 20%, que seria o lucro.

C: Mas são 20% sobre R$9.000 a partir de R$1.000!

B: Algo assim.

C: E por que não é meu esse lucro? Afinal, não se trata do meu dinheiro?

B: É a aplicação das teorias bancárias...

C: Mas tenho que cobrar-lhes juros, pois se trata do meu dinheiro!

B: Isso o senhor já faz. Dependerá do tipo de conta, desde 0.5% até 6%
ou 8% para depósitos a prazo, dependendo da taxa.

C: Mas que negócio estou fazendo!

B: Claro que esse juro o senhor recebe no caso de não retirar seu dinheiro.

C: Mas é claro que vou retirá-lo! Se pensasse nunca mais sacá-lo... eu o teria enterrado no jardim!

B: Não vamos gostar se o sacar de novo...

C: Por que não? Se o mantenho no banco, o senhor me disse que é passivo (dinheiro que vocês devem)... Penso eu que os senhores ficarão contentes por ver que reduzo suas dívidas.

B: Não! Isso não nos interessa.... Se o senhor o retirar não poderemos emprestá-lo a ninguém!

C: Mas se quero sacá-lo, terão que dá-lo a mim!

B: Certamente.

C: Então... suponha que já emprestaram meu dinheiro a outro cliente.

B: Nesse caso lhe daremos o dinheiro de outra pessoa.

C: Mas... e se essa pessoa também o quiser?

B: O senhor está sendo propositadamente obtuso!

C: Pois eu acho que estou sendo é agudo. O que aconteceria se todo mundo quisesse seu dinheiro ao mesmo tempo?

B: A teoria bancária diz que isso não acontecerá NUNCA.

C: Quer dizer que os bancos têm por princípio NÃO SE VEREM OBRIGADOS A CUMPRIR COM SEUS COMPROMISSOS.

B: Eu não exporia a questão nesses termos...

C: Claro. Enfim, acho que já falamos bastante.

B: Bem, prezado cliente, agora o senhor não tem mais que depositar uma quantia para abrir sua conta.

C: Ah, sim, agradeço. Mas, pensando bem, se vou abrir uma conta... não seria melhor negócio que eu abrisse um banco?


José Luís Gonzales del Moral


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