sexta-feira, 9 de outubro de 2009

A essência do RPG




Gostaria de transcrever uma passagem do livro The Magus, de John Fowless, uma história deliciosa que diz muita coisa sobre  como funciona uma partida de RPG na cabeça do grupo de pessoas que a está vivenciando. Vamos Deixar que esta descrição ecoe na nossa mente.

O Príncipe e o Mágico


Era uma vez um jovem príncipe que acreditava em tudo com exceção de três coisas. Não acreditava em princesas, nem ilhas, nem em Deus. Seu pai, o rei, lhe dissera que essas coisas não existiam. Como no reino não havia princesas, nem ilhas, nem sinal de Deus, o jovem príncipe acreditava no que seu pai lhe dissera.


Mas um dia o príncipe fugiu do palácio e chegou em outro reino. Ali, uma grande surpresa, havia ilhas, e nessas ilhas ele viu criaturas estranhas e perturbadoras às quais não ousava dar nomes. Enquanto procurava um barco, um homem elegantemente vestido se aproximou dele no cais.

-  Aquelas ilhas são verdadeiras?, perguntou o jovem príncipe.

- Claro que são verdadeiras, disse o homem bem vestido.
  
- E aquelas criaturas estranhas e perturbadoras?

São todas princesas autênticas e verdadeiras.

Então Deus também deve existir !, exclamou o príncipe.

- Eu sou Deus, respondeu o homem elegantemente vestido, fazendo uma reverência.

O jovem príncipe, voltou pra casa o mais rapidamente que pôde. 

- Ah, você voltou!, disse o rei. 

- Eu vi ilhas, vi princesas, e vi Deus, disse o príncipe com ar de reprovação.

O rei não se abalou.

Não existem ilhas, nem princesas, nem Deus de verdade.

Eu vi tudo isso!

Diga-me como Deus estava vestido.

- Deus estava com uma elegante roupa de noite. 

 - As mangas do casaco dele estavam enroladas?

O príncipe se lembrou que sim. O rei sorriu. 

- Ah, esse é o uniforme dos mágicos. Você foi enganado.









Então o príncipe voltou ao outro reino e foi ao mesmo cais, onde mais uma vez encontrou o homem elegantemente vestido.

- Meu pai, o rei, me contou quem você é, disse o jovem príncipe, indignado. 

- Você me enganou,mas não enganará mais. Agora sei que aquelas ilhas não são verdadeiras, que aquelas princesas não são verdadeiras, porque você é um mágico.

O homem do cais sorriu.

- Você é que foi enganado, meu rapaz. No reino de seu pai existem muitas ilhas e princesas. Mas você está sob o encantamento de seu pai, por isso não consegue vê-las.

O príncipe voltou pra casa pensativo. Quando encontrou o pai, olhou-o diretamente nos olhos. 

- Pai, é verdade que você não é um rei de verdade, mas apenas um mágico?

O rei sorriu e enrolou as mangas. 

- É verdade meu filho. Sou apenas um mágico.

Então o homem do cais era Deus.

O homem do cais era outro mágico.

Eu tenho que saber a verdade verdadeira, a verdade além da mágica.

Não há verdade além da mágica!, disse o rei.


O príncipe ficou muito triste. 

-  Vou me matar, disse.


Então num passe de mágica, o rei fez com que a Morte surgisse. A Morte ficou na porta e fez um sinal para o príncipe. O príncipe deu de ombros. Lembrou-se das lindas e irreais ilhas e das lindas e irreais princesas. 

- Tudo bem, ele disse . Posso aguentar.

Como vê, meu filho,disse o rei, você também está começando a se tornar um mágico.

The Magus, John Fowles, publicado por Jonathan Cape, 1977.

Da mesma forma que o príncipe foi enganado pelo rei nós somos enganados todos os dias por nossos sentidos. Nossa visão, audição, tato, paladar e olfato são meros filtros de estímulos. Tudo que achamos que existe não passa de uma mera representação da verdade. Assim como um mapa nós dá informações valiosas sobre o território nossos sentidos nos dão informações valiosas sobre a verdade. Mas o mapa não é o território. Logo, não sabemos qual é a verdade. 

Na verdade esse é o verdadeiro papel do mestre dentro de uma partida de RPG, é fazer o papel do rei e enganar os jogadores através da sua representação da realidade mostrando a sua visão do mundo do jogo, criando um mapa ( que e´apenas uma das verdades), mas não mostrando verdadeiramente o território.


A mágica é aquilo que não pode ser explicado. Muitas pessoas enxergam idéias, regras, de um determinado sistema de RPG como  uma verdade absoluta e não podem ser mudadas mas quando percebem após algum tempo jogando que nem tudo são regras, e ficam tristes ao descobrir( as vezes tarde demais) o terrítório, por trás do mapa, e o quanto que perderam de se divertir apostando nas regras.

Vamos enrolar as nossas mangas, e contar as nossas estórias como um jogo de contar estórias que  RPG é, e esquecer um pouco de quais regras são melhores ou piores, qual sistema é melhor, numa partida devemos contar estórias uns para os outros e nos divertir e só, esta é a única regra.

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